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Geração Z pode passar anos no sexo virtual, sem se preocupar com relações físicas, diz especialista

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Geração Z pode passar anos no sexo virtual, sem se preocupar com relações físicas, diz especialista

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Foto: Léo Souza/

Carmita AbdoPsiquiatra e professora da Faculdade de Medicina da USP

Se por um lado, a geração Z cresceu dando ‘matches’ em aplicativos de relacionamento e com acesso fácil à pornografia online; por outro, estudos mostram que esses jovens fazem menos sexo que as gerações anteriores. Mas o que explica esse paradoxo sobre o comportamento sexual dos nascidos entre 1995 e 2010?

Para a psiquiatra Carmita Abdo, professora da Faculdade de Medicina da USP e uma das maiores especialistas em sexualidade do País, em primeiro lugar, é preciso saber de qual sexo estamos falando quando esses estudos são feitos. Para ela, os jovens da geração Z nem sempre estão interessados em levar sua vida sexual online para a dimensão física.

“A interpretação que se dá para esse tipo de pergunta (de um estudo) é se ele faz aquele sexo cara a cara, corpo a corpo. Esse ele não faz ainda, mas ele está desde os 11 anos acessando material erótico, tendo a sua iniciação, primeiro masturbatória, frente a um vídeo e, daqui a pouco, vai buscando parcerias na internet e pode passar anos, como de fato muitos passam, sem nem se preocupar em ter um encontro físico com alguém”, diz a especialista, que também é autora do livro Sexo no Cotidiano (Editora Contexto).

Em entrevista ao Estadão, Carmita explica que o início mais tardio das práticas sexuais presenciais e a frequência menor de relações na geração Z não significa necessariamente falta de interesse no sexo, mas, sim, uma predileção por vivências virtuais. O comportamento nem sempre é ruim, na visão dela, mas pode trazer problemas caso o jovem não consiga romper a barreira das telas.

“Passados anos, anos e anos de uma atividade masturbatória com o lado de lá, que também está se masturbando, o que acontece é que esse jovem, quando vai iniciar, enfim, uma relação física, ele não tem o mesmo desempenho”, diz ela. “Quando está com alguém fisicamente, ele tem que se preocupar com o tempo, os interesses e o repertório sexual da outra pessoa e ele vê que não havia essa necessidade no virtual e agora há essa necessidade, que incomoda, que interfere, que atrapalha e faz com que o sexo não seja tudo aquilo de prazer que era antes”, comenta a especialista.

O acesso fácil a um vasto e variado conteúdo pornográfico também dificulta a prática sexual cara a cara, que corre o risco de parecer sem graça para jovens que moldaram sua sexualidade com base em vídeos com parceiras “deslumbrantes e performáticas”. “E agora, com a inteligência artificial, nós vamos ter isso mais exacerbado ainda”, destaca a psiquiatra.

A preferência pelas interações sexuais virtuais também pode esconder o medo de se frustrar de uma geração que foi “muito protegida” e “não se expõe”, segundo Carmita. Para a especialista, o mundo virtual hoje faz parte do mundo real e é natural que as práticas vividas no ambiente online sejam incorporadas.

Para ela, no entanto, no sexo ou em outros aspectos da vida, o ambiente digital não pode servir de esconderijo para evitar as interações olho no olho, importantes para a evolução dos indivíduos e para a construção de afeto e outras conexões interpessoais. Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

Para psiquiatra especialista em sexualidade, a geração Z não está desinteressada em sexo, apenas prefere experiências virtuais.  Foto: mtrlin/Adobe Stock

O que os estudos mostram sobre o comportamento sexual da geração Z?

A gente sabe que é uma geração que começa (a fazer sexo) mais tarde. As pesquisas vêm mostrando repetidamente que esse é um fato, mas o começar mais tarde, pensa também o quanto de estímulo que essa geração tem. A libido deles está distribuída para vários interesses, então, enquanto para gerações passadas, o único entretenimento que competia com o sexo era o cinema, a TV, alguma baladinha, hoje se multiplicaram todas as possibilidades de estar envolvido com algo realmente muito interessante e que leva a libido para aquele interesse. E não é necessariamente uma carreira, uma missão, mas é também algo com o que ele possa se divertir sozinho, na tranquilidade do seu quarto, sem gasto nenhum e na maior acessibilidade, quando ele resolver.

A geração Z parece ter maior liberdade sexual e maior facilidade de ter múltiplos parceiros, mas, ao mesmo tempo, há pesquisas que mostram que esses jovens estão fazendo menos sexo? Como vê esse paradoxo?

Sem dúvida, os resultados das pesquisas não podemos refutar, elas são muito bem estruturadas, bem desenvolvidas, porém, talvez a forma de interpretar as respostas é que precisa de um pouquinho mais de cautela. A interpretação que o respondente deu pra pergunta (da pesquisa) é se ele faz aquele sexo cara a cara, corpo a corpo. Esse ele não faz ainda, mas ele está desde os 11 anos acessando material erótico, tendo a sua iniciação, primeiro masturbatória, frente a um vídeo e, daqui a pouco, vai buscando parcerias na internet e pode passar anos, como de fato muitos passam, sem nem se preocupar em ter um encontro físico com alguém e começar, de fato, uma atividade sexual.

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Eu recebo paciente aqui e pergunto: ‘Você faz sexo?’ (Ele responde:) ‘Faço. Eu entro lá e a gente faz, mas eu nunca vi na minha frente aquela pessoa, nunca estive com ela, nunca marcamos um encontro, a gente tem encontros virtuais’. Isso é muito comum. Então, quando a pesquisa pergunta ‘você já teve quantos atos sexuais?’ (Eles respondem): ‘Nenhum’, porque a pergunta é entendida como um sexo que a pessoa tenha feito da forma mais convencional, pré-era da internet.

Passados anos, anos e anos de uma atividade masturbatória com o lado de lá, que também está se masturbando, o que acontece é que esse jovem, quando vai iniciar, enfim, uma relação física, ele não tem o mesmo desempenho porque (antes) era ele próprio que se estimulava. Ser estimulado por alguém é inédito, então é como se ele estivesse começando agora, apesar de já estar há anos com prática sexual. E por vezes ele falha. Quantos jovens não chegam ao consultório comentando que não têm ereção. Então, essa pessoa não tem problemas quando está no sexo virtual, mas, diante de uma parceria física, não consegue funcionar.

Passados anos, anos e anos de uma atividade masturbatória com o lado de lá, o que acontece é que esse jovem, quando vai iniciar, enfim, uma relação física, ele não tem o mesmo desempenho.

Carmita Abdo, psiquiatra e professora da USP

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A sra. contou que às vezes esses jovens vão para os encontros presenciais e não conseguem ter um bom desempenho com o/a parceiro/a. Mas e em relação ao próprio prazer? É muito diferente alcançar o prazer quando você está sozinho e controla tudo e quando há uma troca com o outro. Alguns desses jovens podem estar evitando relações presenciais para poder ter esse maior controle do prazer?

É isso mesmo, a pessoa tem consigo mesma um prazer que é todinho voltado para ela, a preocupação dela é o seu prazer. Quando está com alguém fisicamente, tem que se preocupar com o tempo, os interesses e o repertório sexual da outra pessoa e vê que não havia essa necessidade no virtual e agora há essa necessidade, que incomoda, que interfere, que atrapalha e faz com que o sexo não seja tudo aquilo de prazer que era antes.

Então muitos se ressentem e voltam para o virtual. Ou passam a desenvolver relações assexuais, que é quando eu gosto daquela pessoa, me faz muito bem a companhia dela, quero ter carinho, trocar carícias, estar junto fisicamente, mas genitalmente falando não quero complicação, eu quero aquele sexo que eu faço do meu jeito, com o meu ritmo e com as minhas escolhas.

Sei que é difícil colocar as situações numa caixinha ou rótulo porque cada ser é diferente, mas até que ponto esse tipo de conduta de privilegiar o sexo virtual é saudável e sustentável?

Num primeiro momento, estar preocupado consigo mesmo, se bastar, é tudo de bom. Só que, ao longo do tempo, a própria pessoa vai percebendo que ela não desfruta de uma outra alternativa que poderia ser interessante, que ampliaria o contexto. A situação que nós estamos vivendo é a pós-modernidade líquida. Lembra-se então quando o Bauman (Zygmunt Bauman, filósofo e sociólogo polonês) trouxe esse conceito de que estávamos vivendo relacionamentos muito descompromissados e muito temporários, tudo é rápido e é sem a mínima a necessidade de continuidade, não só no sexo.

A geração que antecedeu a geração Z usufruiu dessa temporariedade e desse descompromisso, e a sensação de solidão, a depressão que essas pessoas passaram a viver e que, com a pandemia, se tornou ainda mais evidente, foi o resultado desse descompromisso.

Aí vem uma geração Z que resolve de uma outra forma: eu até fico várias vezes com a mesma pessoa, mas num outro plano. Eu até me prendo, até me ligo, mas no outro plano.

Que é o plano virtual…

Sim, é o plano virtual. Porque ‘eu não quero sair do meu conforto’. É uma geração que preza muito o seu conforto. Então essa coisa voltada para si vem da geração anterior, que é o descompromisso e a provisoriedade. Agora, de repente, eu até fico bastante com alguém, mas tem que ser dentro do meu interesse e dentro do aconchego que eu consegui construir para mim com o mínimo esforço que eu consegui despender. Aí você pode dizer: ‘isso é péssimo’. Não, não necessariamente é péssimo, nós estamos mudando padrões.

Há estatísticas que mostram que a geração Z também vem sendo fortemente impactada por problemas de saúde mental. Como vê esse paradoxo de ser uma geração com mais possibilidades de parceiros e amigos, mas que também se sente muito sozinha e tem altos índices de ansiedade e depressão?

É uma geração que não se expõe e, quando se expõe, sente que é muito frágil. Não acho que a responsabilidade seja deles. Eles precisam ser colocados nas situações, não atrás de telas, mas diante da vida. Então quando a vida se impõe, inexorável, ele se perde. Na solidão do seu quarto, que não é vivida como solidão porque ali ele tem um mundo todo, ele manuseia tudo, ele é o dono do pedaço. Agora, quando ele tem que se compor no mundo em que todo mundo está buscando uma posição, por vezes ele se sente incompetente. Há uma falta de preparo para uma vida adulta.

E essa escolha de às vezes preferir as parcerias sexuais virtuais têm relação com evitar essas frustrações?

Exato, quando eu estou naquilo que eu controlo, eu tenho muito menos frustração. Quando eu tenho que me expor e ficar à disposição do que vai acontecer, aí então o imponderável, que é uma delícia, parece difícil para uma geração que foi tão protegida e que também se protegeu.

A sra. comentou que hoje há muito mais estímulos (sexuais e não sexuais) para a libido. Hoje há acesso livre a vídeos pornográficos das mais variadas práticas. Esse amplo acesso à pornografia online também está mudando o comportamento sexual das gerações mais jovens?

Tudo que o nosso cérebro vê repetidamente, ele assimila e mesmo que, em um primeiro momento, tenha parecido absurdo ou fora de propósito, pela assimilação vai se tornando habitual e, ao se tornar habitual, se torna corriqueiro, normal e natural. E a partir daí, é passível de ser repetido porque tudo que eu vejo e assimilo, eu incorporo e passo a repetir.

Então aquelas múltiplas alternativas pornográficas, sejam elas saudáveis ou não, passarão a ser exercidas por esses jovens porque se tornaram cotidianas. Mas com um agravante: a parceria que o jovem escolhe para se excitar (com a pornografia) é deslumbrante, performática e, de repente, no presencial, no físico, é muito ‘inferior’. Então, ele não se excita.

Esse é outro aspecto, ele não consegue ter com aquela parceria do mundo real o prazer que ele tem com a que foi escolhida na internet. E aí ele falha, por falta de atração. E agora, com a inteligência artificial, nós vamos ter isso mais exacerbado ainda. Eu invento com quem eu quero (ter relações) e que satisfaz nos mínimos detalhes a minha atratividade.

A parceria que o jovem escolhe para se excitar (com a pornografia) é deslumbrante, performática e, de repente, no presencial, no físico, é muito ‘inferior’. Então, ele não se excita.

Carmita Abdo, psiquiatra e professora da USP

Os jovens procuram os consultórios para falar desses problemas sexuais? Quais são as principais queixas?

Os do sexo masculino em geral procuram por perda de ereção ou ejaculação precoce, que é muito observada hoje porque os jovens não têm tranquilidade para esperar vir a excitação, esperar a coisa acontecer de forma pausada. Há o receio da avaliação que a outra pessoa vai fazer dele, então ele acaba perdendo o controle da ejaculação ou perdendo a ereção.

Nas meninas, elas se queixam da falta de desejo. Agora, a falta de desejo que vem de depressão, ansiedade, até de uma autoestima muito baixa, a jovem começa, para se defender, a dizer ‘não tenho vontade mesmo’. Só que quando ela vai querer, passaram-se uns dois, três, quatro anos de aprendizado que ela perdeu, e ela vai começar numa fase mais avançada a ganhar uma experiência, e talvez ela fique constrangida de estar fora da média dela e continue retraída, e vai passando a vida e a defesa que ela tem é dizer que não tem desejo. Isso não é assexuado, isso é uma pessoa que tem desejo que ela reprime para poder suportar uma falta de algo que ela não se sente pronta nem habilitada para buscar.

Com essas novas dinâmicas relacionadas às práticas sexuais virtuais, esses tipos de queixas vêm se tornando mais comuns?

Comecei a trabalhar com sexualidade no fim dos anos 1970. A frequência de problemas sexuais, por incrível que pareça, é similar entre os países e as diferentes gerações. Eles dependem de múltiplos fatores que acabam se somando. Então, se hoje as pessoas são mais saudáveis, elas podem fazer um sexo melhor porque fisicamente elas estão melhor atendidas, por outro lado, emocionalmente elas não estão, o relacionamento é uma coisa mais difícil. Então os vários elementos que levam a um sexo de boa ou má condição se mesclam e o que a gente tem é que as disfunções sexuais estão presentes na vida das pessoas.

A diferença dessa geração para a geração passada é que essas dificuldades vão sendo superadas com o exercício da sexualidade, vão sendo problemas temporários. Agora, quando não se exercita, quando se foge, quando se evita ou quando se substitui uma atividade por outra…

Poucos jovens terão falha de ereção na masturbação diante de um vídeo. Ele me procura quando resolve sair da frente do vídeo e fazer sexo com alguém. Aí ele se dá conta que ele falha, aí é uma situação de muita dor e frustração, porque tenta uma vez, tenta duas, tenta três, aí não tenta mais porque ‘já não estou na idade de falhar’. Aí eles vão me procurar não com 16 ou com 17 anos, elas vão chegar aqui com 25, 26 anos, porque eles começaram a fazer mais tarde e falharam.

Como fazer uso equilibrado das novas tecnologias para que elas não sejam uma trava para que o jovem viva experiências também no mundo fora das telas?

Claro que tudo que existe precisa ser incorporado, então não acho que vamos demonizar a rede social, a internet, nem vamos tirá-las da vida. Primeiro que não dá para tirar. Se você tira, de alguma forma, a criança ou o adolescente vai buscar em algum lugar. Então vamos equilibrar. Vamos deixar clara a importância de viver no mundo real assim como no mundo virtual, com uma parcimônia, não ficar se escondendo do mundo real no mundo virtual.

Falando especificamente sobre sexo, como os jovens muito focados nas relações virtuais, alguns até com problemas de desempenho no sexo presencial, podem vencer essas questões?

A ideia é estimular, mas com controle, dentro de um processo psicoterápico. A terapia sexual é alguma coisa muito bem programada, ela é de sessões bastante objetivas, é uma terapia breve, não é algo que dura anos. Ele vai se tornando apto porque é um ser inteligente, é um ser preparado, conhece sexo, conhece muitas possibilidades que ele só não colocou em prática. Então nós vamos estruturando a possibilidade de ele colocar em prática aquilo que ele, em teoria, já sabe. É quebrar o medo da aproximação e também é fazer com que ele tenha recursos para ter o melhor desempenho.

Fonte: Externa

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