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Dólar alto reduz espaço para corte de juros e aumenta desafio econômico do governo Lula

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O movimento de alta do dólar observado desde o início do ano – que atingiu o pico nesta terça-feira, 16, quando a moeda americana chegou a R$ 5,268 – pode gerar uma pressão inflacionária no Brasil e consequentemente provocar a desaceleração do ciclo de corte de juros que vem sendo feito pelo Banco Central. O cenário atual traçado por economistas ouvidos pelo Estadão, de aversão do investidor ao risco internacional, tende a gerar impacto na economia brasileira e aumentar o desafio do governo Lula para entregar bons resultados econômicos.

O dólar vinha abaixo do patamar de R$ 4,90 na primeira semana de 2024. Os dados fortes da economia americana que vieram a partir de então, no entanto, levaram a uma mudança nas expectativas para o cenário de juros dos Estados Unidos. A crescente percepção de que o Federal Reserve (Fed, banco central dos Estados Unidos) não deve cortar os juros tão cedo, somada à recente escalada de tensão no Oriente Médio e à alteração na trajetória fiscal promovida pelo governo brasileiro, levou a moeda americana a atingir o maior patamar do ano nesta terça, 16.

A valorização da moeda americana deve pressionar preços de alimentos e também de combustível, o que pode ser repassado ao consumidor. Em relatório enviado a clientes nesta terça-feira, 16, o banco BNP Paribas alterou a projeção do IPCA, PIB e Selic para 2024. No caso do índice de preços ao consumidor, a instituição prevê alta de 4,0% (antes, a previsão era de 3,5%). A expectativa do banco é que o PIB cresça 2,2% (previsão anterior era de 1,8%).

Alta do dólar deve pressionar preço dos alimentos e combustíveis Foto: Agência Brasil

Laiz Carvalho, economista para o Brasil do BNP Paribas, afirma que pode haver pressão sobre os preços com impacto no IPCA e também aumento do custo para investir no País. Por outro lado, diz ela, o setor agropecuário exportador tende a se beneficiar. “Para a atividade econômica há sinais mistos. O lucro do setor agro e extrativo fica maior”, afirma a economista.

O impacto mais rápido a ser sentido pela população, na leitura da economista, é o repasse de preços e, posteriormente, uma possível taxa de juros mais alta. A projeção para a Selic do BNP Paribas também foi revisada no relatório de hoje, para 9,5% no final do ano. Antes era de 9,0%. “Vamos supor que tenhamos um cenário de taxa de câmbio mais alta fazendo com que alguns setores da economia tivessem situação melhor e decidissem contratar, isso demora um pouco. Demora para ter reflexo positivo na vida das pessoas”, afirma.

Felipe Salto, economista-chefe da Warren Investimentos, também avalia que pode haver uma desaceleração no ritmo de cortes dos juros. “Como o Banco Central brasileiro também olha para tudo isso (EUA e Oriente Médio), porque economia é um sistema de vasos comunicantes, não dá para dizer que tudo está, hoje, como estava ontem. Mudou”, afirma.

“Se isso durar muito tempo e os juros acabarem mais altos que o esperado inicialmente, o crescimento econômico será menor e a inflação ficará mais alta. Péssimo para a renda e para o emprego. Espero que não façamos a bobagem de errar de novo no fiscal”, diz Salto. Segundo ele, no entanto, não há motivo para “alarde” sobre a pressão do câmbio na inflação.

“O risco está posto. Fiscal é sempre muito delicado, você não pode descuidar. E o PLDO, desse jeito, foi um grande descuido. Agora tem de reverter. Mas a boa notícia é que há tempo. Se entregarem um bom número em 2024, aproveitando que as medidas do ano passado estão surtindo bom efeito, pode ter salvação”, afirma Salto.

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse que o cenário externo responde por dois terços do que tem acontecido no Brasil, na questão da moeda Foto: Marcelo Camargo/Agencia Brasil

O cenário local sozinho, na visão dos economistas, não teria sido suficiente para o movimento observado de valorização da moeda americana. Mas o contexto interno da alteração na trajetória fiscal também não é desprezado. A equipe econômica do governo Lula mudou, ontem, 17, a meta fiscal dos próximos dois anos, ao apresentar o projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2025.

Na visão de Armando Castelar, pesquisador do Ibre/FGV, a maior aversão ao risco gerada pelo contexto internacional jogou mais luz aos fundamentos macroeconômicos domésticos. “Havia uma visão de que, sim, havia um problema fiscal preocupante, um resultado que não permitia estabilizar a dívida, mas que era um problema que iria explodir mais lá na frente. Isso mudou. Com uma combinação da maior aversão ao risco, o que acontece passa a ser mais preocupante. Houve certa surpresa também com a velocidade nas mudanças nas metas, com a perspectiva de que as novas metas também podem mudar daqui a pouco”, afirma.

“Obviamente que tudo o que estamos falando é ruim do ponto de vista dos agentes econômicos de forma geral. Pressiona preços de alimentos, também coloca pressão grande na questão dos combustíveis, que é um item bastante sensível no debate político. Mas também gera impacto do ponto de vista dos investidores, de quem vai fazer investimentos físicos, porque o custo de capital fica mais alto”, afirma Castelar. “Tudo isso, seja a questão fiscal seja o cenário externo, reduz espaço para o Banco Central cortar juros, significa maior pressão no gasto público com juros sobre a dívida pública”, diz o pesquisador.

O presidente da República Federativa do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e o ministro Fernando Haddad (Fazenda). Cenário indica maior desafio para governo Lula entregar bons resultados econômicos. Foto: WILTON JUNIOR

Em Washington para participar das reuniões de Primavera do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, culpou o contexto internacional que, segundo ele, explica dois terços do que está acontecendo com a valorização do dólar frente ao real. “Eu diria que isso não explica tudo o que está acontecendo no Brasil, mas explica dois terços do que está acontecendo”, disse Haddad a jornalistas na capital americana.

“O governo tem reagido a essa questão da popularidade com aumento do gasto. E aumento do gasto significa piora no fiscal e mais dificuldade de reduzir juros. Seguir com a mesma resposta pode complicar o cenário”, afirma Castelar. “A tendência é para que aumente a pressão para que se tenha uma resposta que vá além de rever metas fiscais. Tem que haver discussão sobre gastos, sobre ambiente de negócios”, diz o economista.

Fonte: Externa

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